Elon Musk se encontrar com Bolsonaro para discutir a “proteção da Amazônia” é uma piada tão ruim que, espero, não convence ninguém. Por coincidência, Musk anunciou recentemente acordo com a Vale para o fornecimento de níquel. Níquel que a Vale explora no Canadá e…na Amazônia.
Escrevi recentemente sobre isso aqui. Musk, Tesla, níquel, Vale, Amazônia, satélites, semicondutores, guerra e os negócios do governo Bolsonaro com o oligarca
O níquel que a Vale explora na Amazônia fica, hoje, ao redor da terra indígena Xikrin. Os requerimentos DENTRO da TI foram “remanejados” para a borda. E tem muito níquel na Amazônia. Permitir mineração em terra indígena (PL 191) é uma obsessão de Bolsonaro, MME, Lira e cia.
A estimativa do mercado é que a demanda por níquel cresça 19 vezes até 2040, mas analistas apontam para um cenário de escassez a partir de 2026. Musk depende da mineração para os seus negócios e entrou firme no ramo, incluindo o níquel, o cobalto e o lítio.
Os carros elétricos super sustentáveis da Tesla dependem de uma quantidade massiva de minerais considerados “estratégicos”. A Amazônia está repleta desses minerais, inclusive em terras indígenas. Minerais que estão em falta no mercado diante de uma demanda que só cresce.
O Brasil tem projetos voltados para esses minerais estratégicos, inclusive previsto no Plano Nacional de Mineração 2030. Nada é do dia pra noite no setor mineral. É uma articulação de anos, permanente, da qual Bolsonaro, seu governo, Elon Musk e outros atores são parte central.
Vou ilustrar esse papo com dados do próprio CPRM na gestão Bolsonaro. Esses são os tais minerais estratégicos para o Brasil. A exploração desses minerais para suprir a demanda mundial não virá de outro lugar senão o tal “Sul Global”. Ou seja: nós aqui da “periferia” mesmo, amigo.

Esse slide é o meu favorito. O próprio CPRM exemplifica como os carros elétricos dependem desses minerais e como essa demanda absurda pode ser atendida. Como se diz, ninguém está dando ponto sem nó.

Será que o Brasil tá dormindo em berço esplêndido? Não, tem pesquisa ativa para “resolver esses gargalos”. Veja o caso do cobre. Pesquisa no Pará e outros estados e pesquisa prevista para a Bacia do Alto Tapajós e o Escudo das Guianas até 2030. Amazônia ?

Calma que tem mais. Em setembro de 2021 eu revelei como embaixadores estrangeiros foram consultados pelo governo Bolsonaro antes da apresentação do PL 191 e depois, com o projeto em andamento na Câmara. Executivos de mineradoras participam dessas reuniões
Três meses após Jair Bolsonaro enviar ao Congresso o PL 191/2020, em maio de 2020, o secretário de Geologia e Mineração (SGM) do MME, Alexandre Vidigal, participou de reunião com embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman.
Abertamente, a reunião tratou sobre “os propósitos dos dois países em relação aos rumos e princípios que devem orientar o desenvolvimento do setor mineral“, com prioridade para “o avanço da mineração para novas áreas como terras indígenas e faixas de fronteira”.
Chapman destacou que para cumprir as metas dos EUA em mudança do clima, a produção de minerais considerados “críticos” deve subir incríveis 500% e que um “Grupo de Trabalho Bilateral” sobre esse tema foi criado com o governo brasileiro após as conversas de 2020.
“O Grupo de Trabalho visa a apoiar o avanço do relacionamento diplomático e a cooperação técnica bilateral em minerais estratégicos, inclusive melhorando a segurança no abastecimento dessas substâncias em ambos os países”, diz o anúncio oficial, de novembro de 2020.
Mineração em terras indígenas também esteve na pauta das conversas com o embaixador americano e muito – muitíssimo – na pauta das conversas com o governo e agentes de mercado do Canadá, centro financeiro da mineração mundial e tido como “exemplo” de mineração em terra indígena.
Nos últimos anos o Brasil patrocinou, foi destaque e enviou comitivas para o maior evento de mineração do mundo, realizado em Toronto. É neste evento, o PDAC, que muitas dessas parcerias são firmadas e metas são traçadas.
Vidigal participou da abertura do mercado brasileiro na Bolsa de Valores de Toronto (TSX) em março de 2021. O presidente para a América do Sul da TSX, Guillaume Légaré considera o Brasil “o país do presente” para a mineração, com “potencial minerário” enorme.
Em 2020, o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), que representa as maiores empresas do setor, celebrou memorando de entendimento para atrair investimentos canadenses. Hoje o Brasil possui 36 empresas que operam na Bolsa de Toronto, com 99 propriedades minerárias.
A Associação de Mineração do Canadá (The Mining Association of Canadá) e a Câmara de Comércio Canadá-Brasil também tem estreitas relações com o governo brasileiro.
Nada menos que 150 representantes de empresas de mineração brasileiras, canadenses, australianas e britânicas participaram de uma série de seminários feita pelo governo Bolsonaro.
No PDAC de 2020, Vidigal, do MME, se reuniu com o diretor-geral do centro de Pesquisa para Mineração do Governo do Canadá, Magdi Habib e discutiu as prioridades de cada país para o setor mineral, “com ênfase em mineração em terras indígenas”.
95% da mineração canadense é realizada em solo indígena e isso seria “referência de experiência bem-sucedida”. Vidigal saiu do MME para advogar na área privada. O Ministério de Minas e Energia segue com os planos, inclusive em programas de governo como o PMD.
O “Programa Mineração e Desenvolvimento” (PMD), lançado no fim de 2020, tem 110 metas para todo o setor extrativo brasileiro, que devem ser implementadas até 2023. As metas foram literalmente ditadas pelo setor mineral
Elon Musk e a Vale não divulgaram muitos detalhes do acordo, que é “sigiloso”. Mas o objetivo é simples: a Vale é a maior produtora de níquel do mundo. E níquel de boa qualidade. Exatamente o que a Tesla precisa. Se hoje 5% vai para carros elétricos, a meta da Vale é chegar a 40%
A guerra adiciona mais urgência (e lucro) a esse acordo. A Rússia produz 17% do níquel refinado Classe 1 do mundo. Com a invasão da Ucrânia, os preços dispararam mais de 30% na bolsa de Londres, com o níquel atingindo o maior patamar em 11 anos.
A segunda maior produtora de níquel do mundo (disputa tonelada a tonelada com a Vale) é a mineradora russa Nornickel. A guerra tem impacto direto e imediato não só nos minerais estratégicos mas em toda a cadeia de commodities. E os negócios precisam andar…
Mais: nas garantias bancárias que Musk precisou apresentar para tentar comprar o Twitter entraram bancos gigantes como o americano Morgan Stanley, que é grande acionista da Vale após ter adquirido parte significativa da fatia que era do BNDES.
No fim de 2021 o Ministério das Comunicações convidou Musk a abrir uma fábrica de chips semicondutores no Brasil, ao mesmo tempo em que Bolsonaro acaba com a Ceitec, única fábrica de semicondutores da América Latina. O min. Fabio Faria fez a ponte para a reunião de hoje com Musk.
Após uma tentativa desesperada de aprovar o PL 191 em urgência na Câmara, a abertura de terras indígenas para a mineração ficou em suspenso. O próprio mercado (IBRAM e cia) recuou. O cenário internacional é complexo e Bolsonaro é um pária
Sobre como a Vale, após anunciar desistência, tenta minerar no entorno da terra indígena Xikrin no Pará, aqui os detalhes
Por coincidência, quem acaba de assumir o posto de gerente regional da Agência Nacional de Mineração no Pará é um ex-diretor jurídico da mineradora CANADENSE Belo Sun. A Forbes & Manhattan, dona da BS, tem projetos na Amazônia e é próxima de Bolsonaro ?
Tem mais, muito mais. Eu sei dessas coisas porque investigo e pesquiso a indústria extrativa diariamente desde 2015. E criei o @obsmineracao justamente para contar o que o setor mineral não quer que a sociedade saiba. Siga o site aqui no Twitter ?
Não sei o que pode ser mais escancarado. Um presidente de extrema-direita entregar uma “Medalha de Honra” para um oligarca de extrema-direita que quer monitorar a Amazônia tendo o histórico que tem. O ministro Fabio Faria parece um fã diante do ídolo.
O Brasil certamente não precisa de Elon Musk para monitorar a Amazônia. O @inpe_mct é REFERÊNCIA MUNDIAL em monitoramento via satélite. Temos um programa de excelência que – lembram? – Bolsonaro tentou DESTRUIR desde o início do governo. Outra coincidência…
Dezembro 2021 >>> Na era Bolsonaro, Inpe chega ao maior estágio de penúria de sua história. Órgão fundamental para o país sofre com a falta de verba, o que afeta ações estratégicas como as previsões climáticas e o monitoramento da Amazônia
“O orçamento de 2021 do INPE, de 85,4 milhões de reais, é o menor da história recente — a cifra representa METADE do que era destinado ao instituto em 2013. O valor reservado à observação da Amazônia para 2022 não é suficiente para o ano todo”.
“Depois do festejado lançamento na Índia do primeiro satélite de observação da Terra totalmente projetado, testado e operado por brasileiros, em fevereiro, o programa foi literalmente para o espaço. Ele se encontra congelado e sem orçamento”

“O INPE perdeu um quarto dos funcionários que tinha em 2013 e opera no limite. “Se não houver uma reposição séria de pessoal, o instituto vai perder a capacidade de executar o que faz”, alerta Claudio Almeida, responsável pelo monitoramento da Amazônia”.

O governo Bolsonaro destrói o INPE e o monitoramento da Amazônia, pressiona por mineração em terra indígena e abre as portas para o lobby internacional que interessa diretamente a Elon Musk. De quebra, oferece uma fábrica de semicondutores e…o monitoramento da Amazônia. Puxa.
Ainda tem a sordidez de usar a educação escolar rural na Amazônia – certamente com um contrato generoso ??? – como desculpa para isso tudo. É preciso reconhecer: a extrema-direita (às vezes) sabe fazer negócio. Cai quem quer.
Destaco a presença de Rubens Ometto no encontro. Dono do grupo Cosan, Ometto controla a Rumo, gigante empresa de logística que opera milhares de km de ferrovias usadas para escoar fertilizantes, minérios, grãos, combustíveis e commodities em geral
A Cosan faz parte do grupo de empresas analisadas no 3o relatório Cumplicidade na Destruição, @obsmineracao. Em suma, grandes financiadores internacionais investem em mineradoras, na Cosan e cia. O fluxo de dinheiro vem de poucos nomes, como a BlackRock
A BlackRock é uma grande acionista da Tesla. E também investe bilhões de dólares em mineradoras como a Vale e outras gigantes. Empresas com conflitos graves envolvendo indígenas na Amazônia. Percebe? Tudo mapeado na 4a edição do relatório, de fevereiro