Às vezes eu penso que by @nadanovonofront

Às vezes eu penso que nãovai ter quarentena no Brasil. Lockdown, ruas paradas e tal. Nem mesmo quando a gente chegar em um número absurdo de mortes por dia, com corpos nas casas, nas ruas e tal. Tudo por motivos muito simples que explicarei a seguir:


Reuni essa sequência, com uma ou outra adaptação, em um texto único, caso vocês queiram compartilhar de maneira mais fácil

https://nadanovonofront.com/2020/04/17/nao-vai-ter-lockdown/


1) O Brasil é um país de altíssima segregação espacial, especialmente nas grandes cidades. É muito difícil a “cidade dos ricos” se misturar com a “cidade dos pobres”. Em SP, isso é notório. Mesmo no Rio, há uma segregação entre os morros e o restante da cidade. Não é integrado.


Com isso, o fato é que ricos e cidadãos de classe média não vão ver a morte tão de perto. Vão ver notícias, se assustar com números, perder um ou outro parente, mas não vão se incomodar porque não vão ver o grosso da coisa, não vão viver aquilo de perto o suficiente pra assustar


2) O Brasil é um país acostumado com a morte. São 40, 50, 60 mil homicídios ao ano. O brasileiro assiste todo dia programas policialescos que passam a impressão de que só há morte e sangue no país. Isso gera uma sensação de alerta constante, medo, sensação de morte todo santo dia


Essa sensação de alerta também gera outra coisa: incapacidade de se alertar quando a crise é verdadeira. A sensação de crise e de caos constante faz com que as pessoas enxerguem um cenário grave só como “mais uma crise, mais alguns mortos, nada anormal”


3) O brasileiro acha que vai morrer todo dia. Acha que o assaltante está à espreita na esquina pronto pra matar. Que vai ficar doente e vai morrer porque vendem todo dia que “o SUS é uma bosta”. Isso também contribui pra minimização do coronavírus, afinal “vamos todos morrer”


4) O brasileiro é muito místico, no sentido de buscar soluções não científicas pra seus problemas. Não adianta falar de ciência: o brasileiro mais simples acredita mais no pastor, na benzedeira ou na simpatia que no conhecimento científico. Isso é cultural entre os mais velhos


5) Visão negativa da política: o Brasil tem passado por uma onda enorme de negação da política há alguns anos já. Isso faz com que fontes oficiais não tenham credibilidade, não importa o que aconteça. A sensação de ausência de serviços públicos nas periferias piora essa percepção


6) Falta de uma estrutura de bem estar social: a ausência de uma estrutura decente de promoção de bem estar social e um cenário de desmonte da pouca estrutura existente. Além de aumentar a descrença no estado, isso força as pessoas a “se virarem” e desconfiarem da ajuda anunciada


Resumindo: o Brasil pegou essa crise no pior momento possível. Fatores culturais se somaram a fatores contextuais pra chegarmos nesse momento não só com um governo ruim, mas com uma sensação geral de descrença que faz o brasileiro simplesmente se acostumar com a morte massificada


É triste e desalentador mas previne a gente de ter ilusões de que o brasileiro vai simplesmente se iluminar e ficar em casa no meio dessa pandemia.

Se não houvesse ninguém falando pro brasileiro ir pra rua, talvez até ficasse, reclamando. Mas não vai ficar


E não vai ficar porque o discurso do Bolsonaro é um discurso de senso comum, que reverbera a reclamação dessas pessoas já descrentes com a politica e que não acreditam na ciência. E se a tragédia chegar, poxa, que pena, chegou, é só a morte de novo, já conhecemos isso.


Não tenham ilusões. Não achem que as coisas vão simplesmente se ajeitar. Essa pandemia só será mitigada e suprimida com muito trabalho. Especialmente no caso do Brasil, em que um monte de gente poderosa está trabalhando contra.


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